Nacional

EDITORIAL I

A classe trabalhadora pós-junho e as tarefas da esquerda revolucionária

20 Mar 2014   |   comentários

Toda a campanha reacionária que a burguesia e os meios de comunicação de massas fizeram tentando utilizar a trágica morte do cinegrafista Santiago Andrade para legitimar a repressão estatal e coibir os protestos não teve êxito. Houve um forte rechaço àaprovação de medidas mais reacionárias como a chamada “lei antiterrorista†. A preocupação de fundo das elites dominantes segue sendo o profundo descontentamento de amplos setores das massas com os multimilionários gastos com a Copa do Mundo enquanto a maioria esmagadora da população sofre com as enchentes e com a péssima qualidade dos serviços “públicos†, agora somados às primeiras crises de racionamento de água e o risco de racionamento de luz.

Apesar das pesquisas de opinião ainda indicarem Dilma como a principal favorita para as eleições de outubro, o índice de popularidade da presidenta voltou a cair, e as disputas eleitorais escancaram a debilidade da coalisão governante com os aliados do PMDB no Congresso evidenciam a podridão de todos os principais partidos do regime político. Com a morte de Cláudia, auxiliar de limpeza negra que assim como Amarildo foi cruelmente assassinada pelos órgãos de repressão do Estado, se acumulam desgaste e descontentamento com a ação violenta e a impunidade da polícia.

Mas o componente mais novo da situação reside na heroica greve dos garis do Rio de Janeiro, que comoveram o país em pleno carnaval, simbolizando um passo superior na lenta e persistente entrada da classe trabalhadora como ator cada vez mais importante do cenário político nacional.

Da rebelião dos peões da construção civil àdos rodoviários de Porto Alegre

Já antes de junho a classe trabalhadora brasileira protagonizava um ascenso de greves econômicas que vinham crescendo desde 2004, chegando em 2012 aos maiores índices de greve desde 1995. Em meio a esse processo – que em sua maior parte foi controlado pela burocracia sindical salvo exceções de greves mais duras e combativas especialmente nos serviços públicos –, os operários da construção civil se destacaram por greves selvagens que se enfrentaram contra a burocracia sindical e indiretamente questionaram alguns pilares do “projeto de país†lulista. Apesar de terem obtido várias conquistas econômicas, a luta dos peões da construção civil não se transformou em uma grande causa nacional pela completa impotência da esquerda que, mesmo dirigindo importantes sindicatos e oposições dessa categoria, não foi capaz de se colocar como uma alternativa àburocracia sindical nesse sentido, colocando suas forças a serviço de campanhas do solidariedade que de fato fortalecessem os trabalhadores (o que se mostrou mais uma vez na greve do Comperj que recentemente se encerrou depois de 42 dias).

Nesse ano, a greve dos rodoviários de Porto Alegre expressou um novo passo na subjetividade operária. Durante 15 dias, os rodoviários pararam completamente o principal meio de transporte de uma das principais capitais do país, enfrentando-se contra a direção traidora da Força Sindical, a prefeitura, as máfias patronais e a justiça que decretou a ilegalidade do movimento. Resgatando os piquetes como método da classe operária, os rodoviários só não foram além das conquistas parciais que tiveram porque os setores que se propuseram como alternativa de direção àForça Sindical (correntes internas da CUT, PSOL e PSTU) não confiaram na disposição de luta que ainda demonstravam os trabalhadores para ir por mais, freando a potencialidade de combate dos novos setores ativistas de vanguarda que despontaram nessa batalha.

Os garis foram um exemplo, façamos como os garis

É nesse marco que a greve dos garis do Rio de Janeiro se configura como um salto de qualidade que permite tirar novas conclusões sobre todos esses processos anteriores para enfrentarmos as batalhas que temos pela frente. As próximas lutas devem estar marcadas por essas lições da greve dos garis: confiar nas próprias forças e nos aliados das classes exploradas e oprimidas, organizar a partir dos locais e trabalho, criar organismos profundamente arraigados na base, varrer a burocracia sindical, respeitar a soberania das assembleias e eleger representantes com mandatos revogáveis, e ter objetivos claros a serem alcançados, pois somente assim se evita a dispersão e consolida a união e determinação.

Desta forma, os garis ganharam o apoio da maioria da população e venceram todos os seus inimigos, obtendo conquistas que há muito tempo não víamos no movimento operário. Essas lições se plasmaram na realidade justamente na única luta em que as organizações tradicionais da esquerda não estavam presentes e não puderam influenciar (pois estavam no carnaval). Isso mostra como essas organizações continuam em sua rotina sindicalista e eleitoralista, sem contribuir seriamente para que essa nova subjetividade proletária que vem brotando no país e que tende a resgatar os métodos mais combativos de luta do movimento operário esteja livre para desenvolver toda potencialidade; e coloca a necessidade de construção de uma nova corrente nacional de trabalhadores que construa e encarne essa nova tradição.

Por um movimento operário não corporativo

Para cercar de solidariedade as lutas não bastam declarações de apoio sem envolver as bases das categorias, como é a prática da esquerda. É necessário mobilizar de fato as bases dos trabalhadores para prestar solidariedade ativa e construir fundos de greve que sejam um ponto de apoio contra a repressão patronal e estatal.

Para colocar de pé lutas não corporativas de nada adianta fazer propaganda de demandas populares se a mobilização das bases fica restrita às demandas corporativas. É necessário que a mobilização das bases ligue as demandas próprias de cada categoria com demandas que permitam unificar distintos setores da classe trabalhadora e esta com outros setores oprimidos da sociedade através de ações comuns. Para realmente coordenar as lutas, precisamos construir encontros de delegados de base que de fato unifiquem as pautas e os métodos de combate. Uma ação não corporativa de um setor de massa da classe trabalhadora (por menor que seja) vale por um milhão de discursos e vermelhos pronunciados nos palanques e nos carros de som.

Junto com a luta pelo direito de manifestação e contra a criminalização dos lutadores, esse deveria ser o objetivo do Encontro nacional do Espaço Unidade de Ação a ser realizado no dia 22 de março em São Paulo: colocando em prática as lições da greve dos garis, construir organizações de base profundamente arraigadas nos locais de trabalho que criem uma nova tradição de solidariedade e uma nova educação não corporativa em amplos setores da classe trabalhadora, de modo a que nenhuma luta mais fique isoladas e que um movimento operário combativo emerja como uma alternativa de direção para os setores mais atrasados da classe trabalhadora e as demais classes oprimidas da sociedade.

Entretanto, esse não parece ser o objetivo dos organizadores do encontro (PSTU, a CSP-Conlutas, o MES/PSOL e a CUT pode Mais, junto a outras entidades sindicais). Para além do fato de que não houve debate sobre o encontro nas bases das categorias, tudo indica que o objetivo desse encontro é votar um programa e um calendário que servirão apenas para aproximar os aparatos envolvidos e projetá-los superestruturalmente de forma descolada das necessidades da luta de classes (como vemos em sua predisposição para legitimar e participar da manifestação de conciliação de classes que as direções governistas do movimento de massas estão organizando para o dia 9 de Abril). Um encontro combativo e de esquerda, nesse momento, não pode passar por fora da principal luta operária dos últimos anos, extraindo suas lições para preparar os novos combates dos trabalhadores. Por isso, chamamos todos os setores críticos dessa orientação a lutarmos juntos nesse encontro por um verdadeiro plano de luta para fazer a classe operária emergir como um sujeito político independente.

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