Cultura

NOVELA

A Rede Globo, a bancada evangélica e os setores oprimidos

23 Mar 2015   |   comentários

"Babilônia", escrita por Gilberto Braga, João Ximenes Braga e Ricardo Linhares, substitui "Império" no horário das 21h da TV Globo. Já no primeiro capítulo (16/03) apresentou o tão debatido beijo e o amor de duas mulheres da terceira idade interpretadas pelas atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg. Um dos assuntos mais comentados dos últimos dias nas redes sociais e que vem rendendo inúmeras manifestações de apoio e ódio, não apenas por (...)

"Babilônia", escrita por Gilberto Braga, João Ximenes Braga e Ricardo Linhares, substitui "Império" no horário das 21h da TV Globo. Com direção de Dennis Carvalho, a trama recebeu esse nome por causa do "Morro da Babilônia", zona sul do Rio de Janeiro, região onde é ambientada e faz referência também àBabilônia, cidade muito citada na Bíblia, numa das passagens (Apocalipse), como "a grande mãe das prostituições e das abominações da Terra".

Gilberto Braga já declarou que vai incomodar os tradicionais valores da família brasileira porque "Babilônia" veio para tratar de temas como a luta de classes, com núcleos divididos em classe média carioca e a população que vive nos morros, prostituição e agenciamento de mulheres, corrupção no governo e nas empreiteiras, aborto, etc. Já no primeiro capítulo (16/03) apresentou o tão debatido beijo e o amor de duas mulheres da terceira idade interpretadas pelas atrizes Fernanda Montenegro e Nathália Timberg.

Um dos assuntos mais comentados dos últimos dias nas redes sociais e que vem rendendo inúmeras manifestações de apoio e ódio, não apenas por ser um "beijo gay", mas por ser entre duas mulheres com mais de 80 anos apresentado sem os estereótipos e os fetiches da pornografia heterossexual e da mídia burguesa em geral.

“As cenas não são só para passar tempo, cada cena chegou plena de realização e proposta de história. (...) Foi uma noite muito feliz, a gente espera ter fôlego para manter essa qualidade. É lógico que sempre tem alguém que não gosta, mas faz parte. (...) A cena de encontro amoroso entre a Nathália e eu foi feita sem grandes preparativos. É um casal de 40 anos, e os carinhos vêm naturalmente, com emoção e troca de experiência de vida e também de ajuda mútua†, afirma Fernanda Montenegro.

Segundo Nathália Timberg, "as pessoas ficam hipnotizadas por um momento que veio a coroar a ternura entre as duas. O que é mais importante do que esse frisson de beija ou não beija é que é normal, entre duas pessoas que se amam, que o sentimento venha se expressar dessa maneira. Em qualquer relação - seja ela homossexual ou heterossexual - feliz e positiva ela se consolida em um sentimento que vai se enraizando profundamente†.

Como afirmou Fernanda Montenegro, "sempre tem alguém que não gosta†e no mesmo dia as redes sociais foram tomadas por mensagens de grupos evangélicos organizando um boicote ànovela. Na última quinta-feira (19/03), a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional divulgou uma nota oficial de repúdio ao beijo protagonizado pelas atrizes. O documento, assinado pelo deputado federal e pastor João Campos (PSDB-GO), presidente da Frente e autor do projeto conhecido como "cura gay", diz que a novela tem a “clara intenção de afrontar os cristãos†, “essa é a forma encontrada para disseminar a ideologia de gênero, atacando diretamente a família natural.â€

O pastor Silas Malafaia em nota publicada no site Verdade Gospel: “Não tenho nenhuma dúvida que a Rede Globo é a maior patrocinadora da imoralidade e do homossexualismo no Brasil. Uma vergonha (...) O nome da novela – Babilônia – representa muito bem o que tem sido a Rede Globo, um instrumento de podridão moral. E espero, que como a antiga Babilônia, que eles se autodestruam.â€
A Rede Globo é a conhecida emissora de TV fundada com o apoio da Ditadura Militar e do capital estrangeiro, famosa por seus escândalos de corrupção, alianças com o latifúndio e a Igreja Católica. A velha Rede Globo, inimiga da classe trabalhadora e dos setores oprimidos (mulheres, negrxs, homoafetivxs, etc).

A bilionária Família Marinho representa setores tão reacionários como a Frente Parlamentar Evangélica, Silas Malafaia e Marco Feliciano. O programa “Zorra Total†, que oprime amplos setores da população, não foi retirado do ar, o Jornal Nacional continua cumprindo seu papel nefasto todos os dias. A programação da Globo continua expressando os interesses capitalistas e oprimindo mulheres, homoafetivos, negros e pobres.

Mas parece que a Globo quer aparecer com uma cara mais “liberal†, mais “democrática†ao apresentar o amor de duas mulheres em chave não opressora. Envolvida em escândalos de corrupção, ela só vem perdendo a credibilidade e ao mesmo tempo, sabe que não pode ocorrer novos Junhos e novas frases como o "o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo.†As ruas gritam: "não nos representam!â€
Com certeza um cenário nada tranquilo para as classes dominantes e por isso elas estão fazendo de tudo para absorver e desviar esta onda de descontentamento generalizado. E a Globo não quer ser mais um alvo de protestos e parece disposta a reconquistar sua credibilidade e audiência "absorvendo" temas discutidos nas ruas e nas redes sociais, como o aborto, a corrupção e a homofobia, mas discutir estes temas polêmicos gera descontentamento entre setores conservadores da sociedade que resultam na queda de audiência e patrocinadores.

O que a Globo vai fazer? A Record, emissora ligada aos setores evangélicos tem seu público mais organizado e não parece preocupada em "absorver" estes debates. Será que a Família Marinho vai levar este projeto até o fim?

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