Questão negra

A Globo, Racismo e os limites do humor

22 Feb 2015   |   comentários

No ultimo dia 12/02, o programa "Tá no ar a TV na TV" criado por Marcelo Adnet, Marcos Milhem e Marcelo Farias, aonde são veiculadas várias criticas ácidas a própria globo, produziu um quadro no qual satirizava vários comerciais, e produziu um horrível sobre as Casas Bahia, que chamaram de "escravas Bahia". Neste quadro são vistos as seguintes falas:

“Interrompemos esse programa para apresentar um comercial do século XIX:

Extra, extra, atenção! Não compre escravo hoje!

É que amanhã é dia de mega promoção aqui nas “Escravas Bahia†.

Cabindas, Guinés, Angolas! O Feitor ficou maluco!

Quer açoitar quantos?

É isso mesmo! Compre dois escravos de engenho e leve uma ama de leite inteiramente grátis!

Venha conhecer novas filias: Pelourinho e Pedra do Sal!

Escravas Bahia: Servidão total pra você!â€

(Confira o Video no link abaixo)
http://globotv.globo.com/rede-globo/ta-no-ar-a-tv-na-tv/t/programa/v/ta-no-ar-faz-brincadeira-com-comerciais-de-tv/3963206/

Uma vez assistindo a televisão parei no canal que passava "Todo mundo odeia o Cris", uma série de humor que fala da vida na infância do humorista e ator Chris Rock, onde o titulo já diz muito: um menino negro e periférico que sofre opressão diariamente pelos seus traços e classe social, onde todos o odeiam “simplesmente†por isso, um tema que é banalizado e infelizmente se faz comum e fácil de se tornar comédia, pois quem nunca ouviu uma piada que ridiculariza um negro?!
Pois é, estereotipar e caçoar de um ser humano que já oprimido no seu cotidiano é mais fácil que criticar o opressor de uma forma lúdica, de forma a contestar de fundo o racismo.

Neste programa me vi assistindo a uma cena da sala de aula em que ele fala para a sua professora sobre seus planos, sobre o futuro e ela diz que "não deveria sonhar tanto pois deveria lembrar que ele era negro". Aquelas palavras me fizeram pensar: será que quem escreveu isso não percebe que mais machuca do que faz rir?! As vezes acho que a ideia é essa. Pois já nascemos aprendendo onde é “nosso lugar†na sociedade e desconstruir esta ideia é prejudicial ao opressor.

Mais de 7 milhões de escravos foram mortos no trafico negreiro. Foram 388 anos em que além deles, seus descendentes foram torturados, escravizados e mutilados, em uma das mais horrendas e odiosas passagens da história da humanidade e mesmo assim a Rede Globo ainda se sente a vontade para expor a historia e memoria dos negros que passaram por isso ao ridículo, ignorando o rastro de sangue que persegue os negros até os dias de hoje, seja aqui no Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar do mundo que fora manchado pela escravidão.

Toda essa exposição possui um propósito claro: estereotipar determinados espaços sociais e reforçar os preconceitos ainda existente em nossa sociedade, que ao contrario do que nos tentam fazer acreditar, não acabou com a "libertação" dos escravos, mas sim ganhou outros caminhos, ou seja, a ama de leite no comercial, hoje é babá ou cozinheira de um empresário, o escravo de engenho, hoje é o auxiliar de pedreiro na mansão deste empresário, e assim por diante.

Não podemos permitir que este e outros programas reforcem o ideário racista que coloca o negro como um objeto que pode ser negociado ou um animal que precisa ser domesticado, como são vistos nossos irmãos africanos ou como vem sendo tratados os haitianos que chegam diariamente ao pais. Principalmente quando colocamos que é um programa da Globo, reconhecido por ser uma protetora da ideologia burguesa de dominação, que era defensora da ditadura, e que coloca negros contra brancos enquanto colhe os frutos da divisão entre os trabalhadores pobres e oprimidos pelo sistema de exploração do qual ela faz parte.

Porque se são mais de 500 anos de “civilização†, existe também o mesmo tempo de luta contra a opressão, mas por que nesse tempo todo não transmitem nossa luta em redes de comunicação de massa?!

A resposta é tão clara que chega a ser difícil de entender: por trás de cem pessoas chorando, experimentando da miséria, doença em condições sub humanas, sempre há uma sorrindo, aproveitando das coisas que não precisou fazer para comer, da cama que não precisou arrumar, do trabalho que não precisou realizar e esta pessoa não teve seus ancestrais escravizados ou não tem noção da gravidade que teve a escravidão, pela falta de voz do povo negro ao longo de toda nossa história de luta e resistência, porque até nos dias atuais essa historia nos é contada pelo escravizador.

Permitir que um programa racista como este continue a ser transmitido e rir de suas "inocentes piadas" é apoiar todo o abuso que sofremos em nosso cotidiano, é apagar toda nossa luta e aceitar frases como: quer açoitar quantos?!
Imagine isso se referindo ao seu filho?! É triste e revoltante.

Lutemos pelos nossos antepassados, por nós e por um futuro mais digno e sem a opressão racista sobre nossos filhos. Lutemos pelo fim do capitalismo, pois nele não teremos saída.

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