Internacional

ELEIÇÕES ARGENTINAS

A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores fez uma eleição histórica

06 Nov 2013   |   comentários

Neste sentido, o dado relevante dos comícios de 27 de outubro, de transcendência histórica, foi a grande eleição da FIT que obteve uma bancada de deputados no Congresso.

Derrota do governo e perspectivas de crise política

Os resultados das eleições confirmaram a derrota anunciada do kirchnerismo. A Frente para la Victoria (FpV) perdeu nos principais distritos do país e, sobretudo na Província de Buenos Aires onde a Frente Renovador (FR) de Sergio Massa o superou por 12 pontos. Entretanto, o governo conseguiu recuperar algo do perdido nas PASO, garantindo uma maioria exígua (se apela a “aliados†) em ambas as câmaras. Comparado com os comícios nacionais de 2011 onde CFK obteve 54% a queda foi grande (21 pontos), mas em relação a importante derrota nas legislativas de 2009 após o lock-out agrário, onde ficaram sem quórum, a possibilidade de manter poder no Congresso poderia ser vista como uma arma com a qual tentaram sustentar a governabilidade até as eleições presidenciais. Apesar de tudo, a crise do kirchnerismo é grande, inclusive diferentemente de 2009 não tem sucessor caro como naquele momento o próprio Nestor ou Cristina Kirchner. Ademais, a FPV está dividida internamente e nada indica que não haja novos desprendimentos.

A vitória de Massa favorece um setor que, provindo centralmente do oficialismo busca jogar um papel pelo Fora FpV com uma linha de maior mão dura e uma maior afinidade com o establishment favorável a um ajuste mais direto contra os trabalhadores. Mas a liderança de Massa se circunscreve àprovíncia de Buenos Aires e necessita de projeção nacional para ser presidenciável quando são muitos os “caciques†que disputam a cabeça de uma restauração conservadora. Um primeiro sintoma dos desafios que deverá afrontar o massismo foi a ruptura dos deputados do PRO com a Frente Renovadora ao dia anterior às eleições e quando Mauricio Macri se candidatou publicamente para presidente em 2015.

O outro setor favorecido da eleição foi o “pan-radicalismo†do qual surgem como presidenciáveis o “socialista†amigo da UCR, Hermes Binner, que ganhou em Santa Fé, o radical direitista Julio Cobos, que fez uma boa eleição na Capital. Seguramente, não sem contradições, disputarão a liderança de uma oposição de direita não peronista.

Transição incerta

O grande problema para garantir uma transição ordenada para 2015, objetivo que compartilham FpV, as grandes patronais e a oposição burguesa é o recrudescimento da interna na coalizão do mesmo governo. O debilitado kirchnerismo terá que optar entre apoiar um candidato surgido dos governadores pejotistas próximos ao FpV ou tentar condicionar a quem seja eleito pelo PJ. Por outro lado, já há um novo enfrentamento com Daniel Scioli, a quem os K buscam converter no bode expiatório da derrota. O vice-governador da província de Buenos Aires, Gabriel Mariotto acusou Sciolli e Insaurralde de terem feito uma campanha “vazia†.

Além da luta aberta isso dá conta de uma crise adicional. A campanha “vazia†delata que os K terminaram de sacrificar sua imagem progressista tomando de cheio a agenda da direita com eixo na segurança e propondo a volta de um novo ciclo de endividamento com os organismos de crédito internacionais.

Mas na coalizão de governo não só tem crise o kirchnerismo. Também podem entrar na disputa os poderes “territoriais†de governadores e intendentes, nervo motor do peronismo governante. A “liga dos governadores†do PJ, aliada ao FpV busca evitar a sangria e fechar o passo àMassa, enquanto este se propõe a criar uma “liga de intendentes†nacional para estender sua figura para além da Província de Buenos Aires.

Outro pilar histórico do peronismo em crise é a burocracia sindical. Dividida em seus favores a distintos partidos patronais e desprestigiada antes as bases, seu papel político hoje é quase nulo. Resta ver se a CGT de Caló no próximo período manterá sua lealdade ao kirchnerismo ou dará passos a unidade com o moyanismo passando para a oposição.

Em meio do fim de ciclo kirchnerista uma crise política da coalizão de governo pode determinar o futuro da política nacional. O panorama é mais incerto se temos em conta as contradições do “modelo†econômico: o governo foi incapaz de parar a sangria de reservas e deter a inflação. Sua orientação iniciada com o acordo com o CIADI e o Banco Mundial defenderá cedo ou tarde um ajuste contra os trabalhadores. Frente a todas estas “coalizões†burguesas tem debilidade para propor-se como alternativa clara de poder. Neste contexto, a intervenção da Corte Suprema, declarando constitucional a Lei de Meios, lhe assenta um duro revés a outro ator importante da oposição: o grupo Clarín.

O avanço da esquerda classista

Neste fim de ciclo kirchnerista, para os trabalhadores se trata de postular uma posição política própria, independente dos partidos da burguesia e preparar-se ante qualquer tentativa de descarregar a crise sobre suas costas. Neste sentido, o dado relevante dos comícios de 27 de outubro, de transcendência histórica, foi a grande eleição da FIT que obteve uma bancada de deputados no Congresso. Até o direitista La Nacion nas palavras de seu colunista Carlos Pagni, reconhece que a perspectiva de um ajuste encontra um limite no voto da Frente de Izquierda (29/10). Desde a sua formação em 2011 a Frente de Izquierda deu um salto histórico. Em 27 de outubro conquistamos três deputados nacionais, ademais para derrotar a fraude em Córdoba e que devolvam a bancada que corresponde às forças da FIT, assim como lutando no escrutínio definitivo pelas duas bancadas de Jujuy.

Num país em que a classe trabalhadora vem de uma tradição majoritariamente peronista a extraordinária eleição da FIT mostra uma mudança na subjetividade política de faixas importantíssimas da classe trabalhadora e da juventude. Diferentemente de outras “frentes de esquerda†esta é uma coalizão da esquerda classista que não vai detrás de nenhum setor patronal. A “Nueva Izquierda†que soube se aliar ao Proyecto Sur hoje vai colada em Victor De Gennaro da CTA na Província de Buenos Aires, que ficou reduzida àsua mínima expressão, como aqueles que como Zamora só aparecem para as eleições.

Os resultados obtidos pela FIT fortalecem e multiplicam as forças dos que lutam por defender a todos e cada um dos setores oprimidos, pelas conquistas da classe operária, dos direitos das mulheres trabalhadoras, dos LGBTTIs, pelas liberdades democráticas. A bancada da FIT em Neuquén já demonstrou como referência da forte mobilização de rechaço entreguista com a Chevron, com um projeto de lei elaborado no debate com os trabalhadores estatais para acabar com o emprego precário no Estado provincial e nestes dias com a apresentação de um projeto pelo boleto gratuito para os estudantes. As bancadas obtidas no Congresso, nas legislaturas provinciais e nos conselhos deliberativos serão postos a serviço da luta de classes e da perspectiva estratégica de construir um grande partido revolucionário da classe trabalhadora.

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