Cultura

70 anos de Bob Marley

13 Mar 2015   |   comentários

Bob Marley, maior símbolo do Reggae e um dos músicos mais célebres do século XX, dispensa apresentações. Não há quem não tenha ouvido alguma de suas músicas.

“No bullet can stop us now, we neither beg nor will we bow
Neither can be bought or sold.â€

(Nenhuma bala pode nos parar agora, nós não vamos implorar nem nos curvar
Nem podemos ser comprados ou vendidos.)

- Jamming, Exodus, 1977.

Bob Marley, maior símbolo do Reggae e um dos músicos mais célebres do século XX, dispensa apresentações. Não há quem não tenha ouvido alguma de suas músicas. A sua trajetória rumo a tamanha fama foi tortuosa. Nascido em Kingston, capital da Jamaica, em 1945, Bob foi morar com sua mãe, com apenas dez anos de idade, na maior favela da cidade, Trenchtown. Ali começa sua jornada pela música, ao lado de Bunny Wailer, filho do marido de sua mãe.

A infância de miséria em Trenchtown, na capital de um país negro colonizado pelo imperialismo britânico, marcou profundamente a música de Bob Marley, que nunca deixaria de apresentar um forte componente de protesto social, de rebeldia e de luta contra o racismo, a pobreza e a guerra. Ainda jovem, após deixar a escola com apenas 14 anos e enquanto procurava dar seus primeiros passos na música, foi soldador; mas nas suas letras a identificação mais profunda era com os chamados rude boys, a juventude marginalizada de Kingston que frequentemente acabava recorrendo a pequenos crimes para sobreviver. Daí viria o nome de sua banda, os Wailing Wailers (do termo wail, que em inglês significa tanto um canto de lamento quanto, na gíria negra e do jazz, se expressar musicalmente ou tocar muito bem).
A música, na tradição do povo negro em tantos lugares no mundo, era um canto de lamento e um grito de rebeldia; um instrumento de luta por liberdade e justiça. Bob Marley seria um dos grandes intérpretes e continuadores dessa tradição, tendo se formado nela tanto nas lutas diárias pela sobrevivência em Trenchtown, como nas músicas vindas dos EUA que escutava, como Ray Charles, Fats Domino e Brook Benton. Assim, a música dos Wailing Wailers (depois mudariam seu nome para Wailers, apenas), rapidamente se tornou uma voz reconhecida e aclamada pelo povo de Kingston e da Jamaica. Era uma voz que falava de sua vida, de suas questões, da sua maneira e com uma música autenticamente jamaicana. O sucesso que atingiram na Jamaica, contudo, demoraria muito tempo para ocorrer fora de seu país.

Já no começo da década de 1960, Marley torna-se adepto da religião Rastafári, e a partir de meados dessa mesma década sua música começa a trazer explicitamente os valores dos Rastafári. Movimento surgido a partir dos anos de 1920 na Jamaica, os Rastafári acreditam que o imperador da Etiópia Hailê Selassiê I como a representação na terra de sua divindade Jah. Em que pese toda a crença metafísica, os dogmas, o messianismo e todos os aspectos regressivos comuns às religiões, a religião Rastafári se estabelece como um movimento de resistência e de orgulho do povo negro, resgatando sua herança cultural africana e a sua luta anticolonialista. Inclui em suas crenças a doutrina do regresso do povo negro àà frica e da desocupação do continente africano pelo imperialismo europeu; também tem como um aspecto de sua crença – talvez o mais conhecido e folclorizado – o uso religioso da maconha, o que a coloca também na luta contra o proibicionismo dessa droga. A adesão àreligião Rastafari levou a conflitos com seu produtor Coxsone Dodd, e isso motivou os Wailers a fundarem seu próprio selo, Waili’N’Soul, que rapidamente mostrou sua inviabilidade comercial e faliu, no final de 1967.

Assim, Bob Marley coloca em suas músicas uma curiosa combinação entre a religiosidade rastafári e o protesto social; uma indignação social que incita a lutar, como em “Get up, Stand up†, a denúncia e o combate ao racismo, como em “Redemption Song†ou “Buffalo Soldier†, que fala das tropas formadas exclusivamente por negros que foram utilizadas no combate aos indígenas na colonização do oeste americano. Mas, simultaneamente, prega o pacifismo e o amor como valores universais, tal como em “Positive Vibration†, e outras mais voltadas a falar sobre a religião Rastafári, como “Jah Live†, “Rastaman Chant†ou “Forever Loving Jah†. Essa ideologia o levou a cumprir um papel político bastante contraditório com suas letras de protesto social, como com a organização do concerto pela paz “Smile Jamaica†em 1976, durante um conflito entre o partido governante PNP e seus opositores. O show teve o apoio do primeiro ministro Michael Manley, e causou um atentado apenas dois dias antes que deixou Bob e sua esposa Rita baleados, bem como seu empresário Don Taylor, que em decorrência dos ferimentos ficou confinado a uma cadeira de rodas pelo resto da vida.

O sucesso de Bob e os Wailers tornou o Reggae um gênero musical reconhecido mundialmente, e os músicos jamaicanos foram provavelmente os primeiros artistas negros de um país tão pobre a atingirem tamanha celebridade. Com apenas 36 anos, Bob Marley morreu, em 1981, em grande parte por fruto dos dogmas Rastafári: um simples machucado no dedo de seu pé durante uma partida de futebol deu origem a um câncer; os Rastafári não utilizam medicamentos industrializados, nem médicos ou hospitais. A falta de tratamento no ferimento levou a que o câncer se espalhasse pelo cérebro, pulmão e estômago, levando àmorte do músico. Bob Marley, em que pese a indignação que deu o tom a muitas de suas músicas que tratavam a condição do povo negro, não foi um combatente, mas antes um sonhador que queria apenas a paz. Como disse em Rebel Music, “Why can’t we roam this open country?
Oh, why can’t we be what we want to be? We want to be free†(Por que não podemos vagar por esse país aberto? Oh, por que não podemos ser o que queremos ser? Nós queremos ser livres). Seu sonho de liberdade permanece vivo em suas músicas, ainda a inspirar as novas gerações.

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